sexta-feira, 12 de setembro de 2014

Temporada 1994 parte III O GP DE SAN MARINO

Chegamos ao grande prêmio divisor de águas da F1 moderna. Em meio à tantas mudanças no regulamento que ocorreram, naquele fim de semana alguma coisa estava errada. Além disso, o GP de San Marino mostrou uma faceta cruel, dura e amarga. O show que começa tem que terminar. E o show foi completo. Apesar das duas mortes, quase três, teve pole, corrida, volta mais rápida, podio e  hino. A etapa do show foi completa. Pelo menos as mortes não foram em vão, vamos aos fatos.

O 14º GP de San Marino foi disputado em 1º de maio de 1994 no autódromo Enzo e Dino Ferrari situado em Imola, Itália e marcado por graves acidentes, está entre os mais trágicos da história da F1. À época possuía 4.933 km de extensão que, em 58 voltas perfazia 286,114 Km.

Rubens Barrichello, que era o segundo colocado no campeonato de pilotos com sete pontos, quase morreu num acidente nos treinos da sexta feira batendo numa elevação a 225 km/h o que fez seu Jordan literalmente voar girando várias vezes até parar virado sobre duas rodas. Na sessão de treinos de classificação (sábado), Roland Ratzenberger acabou passando direto pela curva Villeneuve a 306 Km/h e acabou batendo forte na barreira de concreto. Faleceu em decorrência de fraturas múltiplas. Uma volta antes havia subido numa elevação e acredita-se que tenha danificado o aerofólio dianteiro. Em vez de parar decidiu abrir mais uma volta rápida. Ayrton Senna emplacou mais uma pole position com o tempo de 1’21”548, mesmo tendo abandonado os treinos após o acidente de Ratzenberger. Diz-se que Ayrton foi conversar com o médico chefe Sid Watkins e acabou chorando copiosamente quando soube da morte de Ratzenberger. O médico sugeriu que Senna largasse tudo e fosse aproveitar tudo o que já havia conquistado, mas Senna recusou. 

O grid ficou com Ayrton Senna em 1º, Michael Schumacher em 2º, Gerard Berger em 3º, Damon Hill em 4º, J. J. Letho em 5º e Nicola Larini em 6º. Duas Williams, duas Benneton e duas Ferrari. Dessa vez Barrichello não se qualificou por conta de seu grave acidente e Christian Fittipaldi ficou apenas em 16º.

Já no início da prova, Pedro Lamy atingiu a Bennetton de Letho que parou no grid de largada. A pancada lançou pedaços dos carros no público causando ferimentos em nove espectadores. Essa batida acabou forçando a entrada do safety car. Após a relargada, Senna correria apenas mais uma volta, pois acabou batendo a 211Km/h na curva Tamburello, a mesma onde Nélson Piquet tivera traumatismo craniano, sete anos antes, também no dia 1º de maio. A corrida foi interrompida, mas Érik Comas acabou seguindo mesmo com as bandeiras vermelhas causando desespero nos comissários e equipes médicas que atendiam Ayrton Senna. Senna foi levado de helicóptero para o hospital de Bologna, que antes já havia recebido Barrichello e Ratzenberger. A corrida reiniciou após 37 minutos. Como se não fosse suficiente, na volta 48 a Minardi de Michele Alboreto perde uma roda ao sair do pit stop ferindo quatro mecânicos, dois da Lotus e dois da Ferrari.

Mais para o final da prova, a batalha pelo 3º lugar foi algo de emocionante, visto que Hakkinen começou a perder potência permitindo a aproximação de Karl Wendlinger que quase conseguiu seu primeiro pódio. Mas Hakkinen conseguiu segurar seus ataques e não lhe concedeu essa alegria.












A corrida acabou com a vitória de Michael Schumacher com 1h28’28”.642 conseguindo dar uma volta já sobre o 5º colocado, Ukyo Katayama, que pilotava uma Tyrrel com motor Yamaha. Nicola Larini acabou em 2º, Mika Hakkinen em 3º, Karl Wendlinger em 4º e Damon Hill em 6º. Christian Fittipaldi acabou em 13º. Ayrton Senna ainda acabaria em 22º, à frente de Érik Comas, J. J. Letho, Pedro Lamy, Roland Ratzenberger, Paul Belmondo e Rubens Barrichello – porém terminaria o campeonato com 0 pontos. Nicola Larini foi assim o último piloto italiano a marcar pontos com uma Ferrari e devolveria o lugar a Jean Alesi no GP seguinte, em Mônaco.

Ao final, o campeonato ficou com Michael Schumacher em primeiro com 30 pontos, Damon Hill e Rubens Barrichello com 7 pontos, Gerard Berger e Nicola Larini com 6 pontos.

Duas horas e vinte minutos após a bandeirada final, sai o anúncio da morte de Ayrton Senna. A sua morte cerebral foi anunciada às 13h40 de domingo, horário de Brasília. Quarenta minutos mais tarde, foi confirmada a sua morte.

DIVISOR DE ÁGUAS

Sempre gostei de F1 e sempre que posso assisto aos grandes prêmios. Infelizmente lembro-me de ter visto a morte de Ayrton Senna ao vivo na TV. Estava assistindo no meu valente televisor de 14” CRT que funciona até hoje. A geradora não deixou de mostrar o carro destruído e a ação dos socorristas que na tentativa de realizar o salvamento acabaram encobrindo o corpo do piloto, caso contrário as cenas seriam muito mais trágicas e chocantes. Lembro bem da comoção que tomou conta do Brasil daquele momento em diante, de todas as emissoras comentando, algumas até mesmo alterando suas programações e da emoção ter durado vários dias.

Uma pergunta surgiu por consequência: Quem representaria o Brasil daquele momento em diante? Christian Fittipaldi, filho do também piloto de Fórmula 1 Wilson Fittipaldi e sobrinho de Émerson Fittipaldi, bicampeão mundial também na F1? Ou Rubens Barrichello que vinha se saindo melhor e havia sido brilhante na F3?

A vida continuou, o campeonato seguiu e continuei acompanhando a categoria, mas a multidão de seguidores se dispersou. Achavam que a F1 havia perdido a graça, que o Brasil não ganhava mais nada, que era legal na época do Ayrton, etc. etc. O que Ayrton Senna conseguiu despertar no Brasil e no mundo foi muito maior que a F1. Não me lembro de ninguém ter conseguido isso antes na categoria. O Brasil mesmo já havia conquistado 5 outros campeonatos que não mereceram tamanha torcida ou vibração. 


Será que a FIA sentiu esse impacto? Vamos acompanhar com o andar do campeonato de 1994 em diante que aqui relataremos.


*Colaboração e texto: PV Zaidan 

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